quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Autor do mês (com atraso)

Não vale a pena tentar fazer mistérios com a autora que escolhi para este mês do Natal. Foi tão óbvia a escolha, para mim, que não me ocorreu mais ninguém. É a minha preferida? Podem perguntar. Talvez, talvez seja. Sei que é a mais terna, aquela que mais procurou a justiça e a perfeição e isso, na minha opinião, é impagável (como ela foi sempre). 

Sophia é Sophia, e quando ela falava (ou escrevia) o mundo não podia fazer mais do que ficar em silêncio para a ouvir.


Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não 
Porque os outros usam a virtude 
Para comprar o que não tem perdão. 
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados 
Onde germina calada a podridão. 
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem 
E os seus gestos dão sempre dividendo. 
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos 
E tu vais de mãos dadas com os perigos. 
Porque os outros calculam mas tu não.
in Mar Novo (1958)

4 comentários:

Lola disse...

Olha,Susana! O primer livro que eu li em português foi de esta autora (Contos exemplares).Linda.

Encarna S disse...

Há nela uma sensibilidade, que só pode ser apreciada pela leitura da sua obra poética, profundamente marcada por valores como a justiça e A VERDADE, que é sem dúvida, o tema deste poema.

Elvira Coronado Corbacho disse...

Pois é. Tambén vou ficar caladinha.Tão rotunda.

Susana disse...

Lola!!!! Que bom tê-la por aqui! Normalmente começa-se por Sophia, mas pelos contos para crianças, não pelos contos difíceis.

A sensibilidade e o desejo de justiça e perfeição são também o que me atrai, Encarna, este poema foi um dos elementos centrais de um exame de literatura que eu fiz na Escola Secundária. Ainda me lembro do pânico e do mistério que se foi desvendando enquanto percebia que aquele "tu" era um "eu", que aquela profundidade e rotundidade moral eram reais, e que tudo era maravilhoso se contado por esta autora.

Pois é, Elvira, quando leio Sophia, costuma acontecer-me isso. E a obra poética dela é um dos meus livros de cabeceira. Daqueles a que volto uma e outra vez.